domingo, 1 de novembro de 2015

Encontro Estadual de Teologia Feminista 2016

Faltam dois meses para o final de 2015. Começamos já a programar 2016. Por isso, reforçamos o convite para colocar na agenda o XIII Encontro Estadual de Teologia Feminista, que ocorrerá na Escola Superior de Teologia e Espiritualidade Franciscana - ESTEF, nos dias 14 e 15 de maio de 2016, com o tema "Teologia Feminista superando violências".
Os objetivos do encontro:
  •       Ser espaço formativo dos estudos de Teologia Feminista promovido pelos Institutos de Teologia do RS.
  •          Partilhar reflexões e práticas para a superação de violências de gênero.
  •         Proporcionar espaço cultural.
  •          Proporcionar convivência e conhecimento das pessoas que atuam com Teologia Feminista.
  •         Fomentar criação de redes de diálogo em Teologia Feminista.



ESPERAMOS VOCÊ!

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Retomando os Encontros Estaduais

Desde 2014 estamos, EST, ESTEF e CEBI, organizando a retomada dos Encontros Estaduais de Teologia Feminista. Na caminhada estão se agregando outras entidades e Institutos Teológicos.
Com o tema: "Teologia Feminista superando violências", nos encontraremos no terceiro final de semana de maio de 2016, na ESTEF, em Porto Alegre, RS.

Participe com suas sugestões:
encontroestadual-teofem@gmail.com

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Para quem já quer ir agendando:


Congresso Estatual de Teologia: 04-07/05/2015, Em Santo Ângelo, RS (Com Oficina sobre os Encontros Estaduais de Teologia Feminista).
IV Congresso Latino-americano de Gênero e Religião; "História, Saúde e Direitos": 05-08/08/2015, na EST, São Leopoldo, RS.
Maio de 2016 (data e local a confirmar): Encontro Estadual de Teologia Feminista.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Textos em pdf

Car@s amig@s!
Ao lado foi inserida pasta (link). Nela colocaremos textos em formato pdf, já publicados em outros meios ou ainda não, para estudos e aprofundamentos.
Queremos oferecer um serviço de compartilhamento de reflexões.
Se alguém tiver e quiser compartilhar textos, envie-nos.
Caso alguém se sinta lesad@, favor entrar em contato conosco.
Desejamos bom proveito e boas reflexões.

terça-feira, 23 de julho de 2013

O ataque à lei que garante atendimento às vítimas de violência sexual

Ter, 23 de Julho de 2013 No topo, flagrante da reunião de representantes dos movimentos de mulheres e da Bancada Feminina na Câmara dos Deputados. Abaixo, Guacira Cesar de Oliveira e Angela Freitas, que denunciam guerra de desinformação contra o PLC 3/2013 por parte dos setores conservadores. Fotos: Cfemea e Amara BarrosoNo topo, flagrante da reunião de representantes dos movimentos de mulheres e da Bancada Feminina na Câmara dos Deputados. Abaixo, Guacira Cesar de Oliveira e Angela Freitas, que denunciam guerra de desinformação contra o PLC 3/2013 por parte dos setores conservadores. Fotos: Cfemea e Amara BarrosoEstá nas mãos da presidenta Dilma Rousseff para sanção o projeto de lei 60/99, de autoria da deputada federal Iara Bernardi (PT-SP), aprovado unanimemente no Senado e Câmara dos Deputados sob a referência PLC 3/2013. Ele dispõe sobre o atendimento obrigatório e integral de pessoas em situação de violência sexual. “É erro pensar que essa lei altera as normas que hoje regulam o atendimento à saúde das mulheres e adolescentes vítimas de violência sexual”, afirma Guacira Cesar de Oliveira. “Porém, representa reforço legal importante às orientações a esse tipo de atendimento, que já constam da Norma Técnica de Atenção aos Agravos da Violência Sexual contra Mulheres e Adolescentes, do Ministério da Saúde.” Essa norma vigora desde 1999, e é resultado de amplo consenso nas áreas médica, movimentos de saúde e de mulheres. Em 2005, ela foi aprimorada e ampliada. Apesar disso tudo, movimentos religiosos querem que a presidenta Dilma vete o projeto, alguns parcialmente, outros na íntegra. Na quinta-feira passada, 18 de julho, representantes de movimentos de mulheres e da Bancada Feminina na Câmara dos Deputados — Erika Kokay (PT-DF), Jô Morais (PCdoB-MG), Janete Pietá (PT-SP) e Iara Bernardi (PT-SP) –, reuniram-se com Gleisi Hoffmann, ministra-chefe da Casa Civil, e Eleonora Menicucci, ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República. Também estavam presentes representantes do Ministério da Saúde e da Secretaria Especial de Direitos Humanos (SDH). “Nós, assim como as deputadas, dissemos às ministras que somos a favor da sanção integral do PLC 3/2013”, frisa Guacira de Oliveira, representante da Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB) na reunião. “É inconcebível qualquer veto. Seria retrocedermos ao século passado.” Guacira Cesar de Oliveira é socióloga, integra o colegiado do Cfemea. Segue o restante da nossa entrevista. Angela Freitas, representante da AMB no Conselho Estadual dos Direitos da Mulher do Rio de Janeiro (Cedim-RJ), participou da conversa. Aproveitei para ouvi-la sobre a nota divulgada pela AMB, pedindo à presidenta Dilma que sancione integralmente o PLC 3/2013. Viomundo – O que a ministra Gleisi disse para vocês? Guacira de Oliveira – Logo de início, a ministra Gleisi informou que já havia recebido dois grupos religiosos que reivindicam veto ao projeto, um integrado por evangélicos e um grupo católico. Ela nos disse que a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) propõe veto parcial de dois itens: o que trata da prevenção da gravidez e o que dispõe a respeito da informação às vítimas de violência sexual sobre seus direitos legais. Disse também que estão recebendo milhares de cartas, para vetar o projeto de grupos radicais católicos, evangélicos e espíritas, num volume semelhante ao que chegou em relação ao ato médico. Viomundo – E a ministra Eleonora? Guacira de Oliveira — Disse que aquela reunião atendia à manifestação do movimento de mulheres e da Bancada Feminina encaminhada à presidenta Dilma a favor da sanção integral do PLC 3/2013. Esclareceu também que havia recebido manifestações no mesmo sentido do Conselho Federal de Medicina, Conselho de Enfermagem, Associação Brasileira de Saúde Comunitária, Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, Associação Brasileira de Enfermagem e Conselho Federal de Psicologia. Viomundo – O deputado e pastor Marco Feliciano (PSC-SP) e outros fundamentalistas religiosos dizem que esse projeto é para legalizar o aborto. Guacira de Oliveira – É mentira! Estão promovendo guerra desinformação, que é nociva à cidadania. O PLC 3/2013 dispõe exclusivamente sobre a atenção às vítimas (homens e mulheres) da violência sexual. Nada além!!! É preciso lembrar que grande parte dessas vítimas é adolescente. Aliás, na reunião com as ministras, mostramos que, desde 1940, é legal o aborto no Brasil em caso de estupro e risco de vida. E que, desde 1991, temos serviços para o atendimento às vítimas de violência sexual. E ainda que, desde 1999, temos a Norma Técnica sobre a Prevenção e Tratamento dos Agravos Resultantes da Violência Sexual. O PLC 03/2013 não altera absolutamente nada do que já está nessa Norma Técnica de 1999, nem no que dispõe o Decreto Presidencial 7.958, de 13/3/2013, que estabelece diretrizes para o atendimento às vítimas. Ademais, a interrupção da gravidez em caso de violência sexual é direito das mulheres e meninas. Viomundo – Por outro lado, a violência sexual vem aumentando no Brasil. Guacira de Oliveira – Exatamente. E as vítimas desconhecem onde podem ser atendidas. Quase ninguém sabe que serviço oferece atendimento às vítimas de violência sexual. Segundo pesquisa de opinião realizada por Católicas pelo Direito de Decidir, 96% d@s brasileir@s não têm informação sobre a quem ou qual serviço público se deve recorrer em caso de violência sexual. Viomundo – O que significará eventual veto parcial ou total? Guacira de Oliveira – Contraria a nossa reivindicação. Mais que isso. É o mesmo que chocar ovos de serpente. As serpentes do atraso, dos anti-direitos já garantidos, que têm de ser enfrentadas, se não quisermos que mais mulheres e meninas continuem morrendo estupidamente. É preciso lembrar que o atendimento imediato a um caso de estupro, com a prescrição da pílula do dia seguinte, que não é abortiva, previne uma gravidez indesejada, evitando assim o aborto. Viomundo — A Articulação de Mulheres Brasileiras lançou nota apelando à Dilma que sancione o PLC 3/2013, que foi aprovado por unanimidade pela Câmara dos Deputados e pelo Senado. Agora, alguns parlamentares dizem ter aprovado o projeto sem saber o que significava. Angela Freitas – É um absurdo! Em nossa nota, deixamos claro: quem é representante do povo e vota qualquer coisa sem saber do que se trata não tem responsabilidade para exercer mandato público. E eu acrescento: a população deve ficar atenta a esse tipo de parlamentar, para não reelegê-los. A Câmara dos Deputados e o Senado Federal aprovaram por unanimidade o PLC 3/2013. É em respeito a uma decisão unânime do Congresso que a presidenta deve sancionar a lei. E em respeito ao compromisso do Estado brasileiro com a democracia. Viomundo – O que significa essa demanda de segmentos conservadores dos evangélicos, espíritas, católicos? Angela Freitas - Não é democrática, é autoritária, atenta contra o Estado Laico, faz soprar ventos tenebrosos de um Estado teocrático. Viomundo – Uma das alegações desses segmentos é que as mulheres iriam inventar que foram estupradas para conseguir interromper a gravidez legalmente. O que acha desse argumento? Angela Freitas – Tremenda desfaçatez! Um descaso com a honestidade das mulheres. É achar que, por princípio, elas são desonestas e mentirosas. Descaso também diante do saber de profissionais de saúde, que conversam com essas mulheres e as examinam. O aborto legal não é algo que se obtém com facilidade. O atendimento é feito por uma equipe multiprofissional e que não é ignorante. É composta por pessoal da medicina, enfermagem, assistência social, psicologia. Enfim, é essa equipe que, em conjunto, constrói a definição sobre como proceder. E se a mulher estiver inventando, será detectado. É preciso dar essa oportunidade à mulher, e não condená-la a priori. Viomundo – Que avanço o PLC 3/2013 vai possibilitar? Angela Freitas – É o de ter uma norma federal, com status de lei federal, e não somente de norma técnica ou decreto, para garantir a efetivação dos direitos das vítimas a cuidados e proteção. Os serviços não poderão fazer alegações de ocasião para negar o atendimento devido. Dessa maneira, também será possível se enfrentar melhor os obstáculos judiciais que os antiabortistas vêm impondo às vítimas de violência sexual, quando decidem realizar um aborto. A sanção do PLC está em sintonia com as manifestações de rua pela laicidade do Estado, evidente nos protestos contra o projeto da cura gay e o Estatuto do Nascituro, entre outros absurdos fundamentalistas em tramitação no Congresso Nacional. A presidenta Dilma contará com o apoio dos movimentos de mulheres, feminista e de saúde da mulher para a sanção da lei. A Febrasgo (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia) e a Associação Brasileira de Enfermagem também defendem a sanção já! Carta enviada à presidenta Dilma Rousseff com cópia a ministros Conceição Lemes - Originalmente publicado em http://www.viomundo.com.br/, em 23/07/2013.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Poder das mulheres incas

Estudo inédito de Susane Rodrigues, professora da História da UnB, revela poder das mulheres incas no período pré-colombiano. Pesquisa resultou no livro Por uma história do possível: representações das mulheres incas nas crônicas e na historiografia HISTÓRIA Pesquisa traz nova representação das mulheres incas no século 16 Luciana Barreto Da Secretaria de Comunicação Mais que recompor um hiato na história, pesquisa inédita revela uma rica e importante matriz política do império inca no século 16: o poder exercido por bravas e guerreiras mulheres indígenas de Tawantinsuyo – o maior território da América pré-colombiana, existente até a ocupação dos europeus. Com o livro Por uma história do possível: representações das mulheres incas nas crônicas e na historiografia (Paco Editorial, 2012), Susane Rodrigues de Oliveira, professora do Departamento de História da Universidade de Brasília (UnB), não apenas rompe com o silenciamento em torno das figuras femininas na sociedade como também questiona e rechaça a tradicional representação patriarcal, estereotipada e eurocêntrica que os relatos historiográficos vêm sustentando até hoje. A partir da análise das crônicas dos europeus – escritas nos séculos 16 e 17 – Susane Rodrigues empreendeu a sua própria sondagem, indagando sobre esse obscuro passado e as suas relações com o presente, “especialmente sobre a história que praticamente nada nos informa acerca do lugar social do feminino anterior à colonização espanhola”. De acordo com a leitura crítica dos discursos consolidados, “é flagrante a visão androcêntrica e colonizadora que imperava em relatos orientados por um modo europeu de ver e representar o outro", principalmente no que diz respeito ao lugar e ao papel que as mulheres assumiam na sociedade Tawantinsuyu. Conforme conta, sua pesquisa – resultado de seu doutoramento na UnB – foi motivada pela busca de “uma história possível e plural” de mulheres que já exerceram um domínio político importante conjugado, em contraste, ao que pode atestar, em 1997, quando flagrou a situação de extrema pobreza e discriminação social, ilustrada por seus altos índices de desnutrição, graves taxas de mortalidade e falta de acesso a serviços básicos. “Esse quadro de violência e exclusão social se impôs desde o século 16, a partir da presença hispânica no Peru, que vem negando a igualdade de oportunidades em uma situação de tripla discriminação, afinal são mulheres, pobres e indígenas”. HEROÍNAS E GUERREIRAS – Diante dessa evidente situação de desigualdade e discriminação, Susane recontou como as mulheres assumiam participação ativa e reconhecida na sociedade, exercendo poder e autoridade na organização política dos incas, sendo, inclusive, reverenciadas como heroínas, sacerdotisas ou governadoras. A tradição sacra que atravessava e sustentava as comunidades, bem como a visão cosmogônica e mítica associada, também foi considerada e interpretada em comparação às matrizes eurocêntricas e cristãs de representação – justamente as que conformaram as crônicas de pretensão historiográfica. Segundo assinala, na apresentação do livro, a professora Tânia Navarro-Swain, “essa pesquisa surgiu da necessidade de se escrever uma história que descortinasse novos horizontes para as identidades e relações de gênero no Peru incaico e permitisse desconstruir/desnaturalizar as representações negativas e estereotipadas a respeito das mulheres incas, revelando suas condições de produção, ou seja, o seu caráter histórico e seus mecanismos de construção”. Para Tânia, na “história do possível” construída por Susane, “encontram-se traços de sociedades não patriarcais onde o sexo não é o eixo das divisões sociais e o binômio masculino/feminino não se coloca em oposição, concorrência, hierarquia”. De acordo com ela, “a autora teve coragem ao enfrentar os preconceitos acadêmicos, além de desenvoltura para articular diferentes quadros teóricos”. SACERDOTISAS E GOVERNADORAS – Em seu estudo, Susane Rodrigues buscou recompor uma “história ora silenciada ora distorcida, já que as figuras femininas proeminentes foram descredenciadas ou demonizadas nas crônicas”. Diferentemente do que consta nos registros europeus, a historiadora mostra que, em 1530, os espanhóis chegaram aos domínios do Tawantinsuyo e encontraram mulheres ocupando não apenas postos e funções de poder na estrutura sociopolítica incaica, mas também – segundo uma hierarquia sagrada – adoradas e reverenciadas como deusas (huacas)– como no caso das Coyas, das sacerdotisas do Sol e da Lua, das mulheres guerreiras, das señoras Cápacs, das capullanas e das proprietárias de terras e águas. De acordo com o que expõe, figuras constantes no imaginário inca foram propositalmente desqualificadas e demonizadas pelos colonizadores, a exemplo de Mama Huaco, guerreira e conquistadora, e Mama Ocllo, depositária de poder, autoridade e sacralidade. “Essas histórias sagradas, bem como os comportamentos, subjetividades e relações de gênero presentes no Tawantinsuyo, que não se encaixavam nas representações sociais e no padrão religioso católico precisavam ser esquadrinhadas para melhor serem controladas, reordenadas e mesmo eliminadas, tendo em vista os interesses espanhóis de catequização e colonização do Vice-Reino do Peru”, explica Susane. “O objetivo era amenizar o conteúdo perturbador das condutas em relação ao feminino e ao sagrado. Assim os cronistas se empenharam na tarefa de descrever o Tawantinsuyo, especialmente as mulheres huacas e heroínas, a partir das representações sociais reconhecidas e autorizadas de seu tempo/espaço, transformando o não familiar em familiar e ancorando o novo, o desconhecido, em seu universo representacional”, complementa. Os estudos de Susane Rodrigues tiveram início em 1999, no Programa de Pós-Graduação em História da UnB, com a dissertação de mestrado intitulada "Diferentes e desiguais: os incas e suas práticas religiosas sob o olhar dos cronistas espanhóis do Século XVI". Defendida em 2006, sua pesquisa de doutorado foi agora convertida em livro pela Paco Editorial. Interessados podem adquirir a publicação no site da Editora: http://loja.livrariadapaco.com.br/lancamentos/porumahistoriadopossivel.html.

quarta-feira, 7 de março de 2012

No dia 8: luta e indignação - Nancy Cardoso

Dia de luta dos movimentos internacionalistas de mulheres, o 8 de março nunca foi um dia fácil de engolir! Entre o fim de fevereiro e o começo de março as mulheres socialistas dos inícios de 1900 na Rússia, na Europa e nos Estados Unidos celebravam seu dia de luta a partir de acontecimentos importantes: greves, manifestações, enfrentamentos!

Em plena Guerra Mundial, em 1917, na Rússia, as mulheres socialistas realizaram seu Dia da Mulher no dia 23 de fevereiro, pelo calendário russo. No calendário ocidental, a data correspondia ao dia 8 de março. Neste dia, em Petrogrado, um grande número de mulheres operárias, na maioria tecelãs e costureiras, contrariando a posição do Partido, que achava que aquele não era o momento oportuno para qualquer greve, saíram às ruas em manifestação; foi o estopim do começo da primeira fase da Revolução Russa, conhecida depois como a Revolução de Fevereiro.

O que elas queriam? O que nós queremos?

Abolir a propriedade privada? Com certeza!! Abolir a propriedade privada como base da sociedade que estrutura desigualdades, cria hierarquias de poder e mantém uma sistemática guerra contra a natureza e seus seres. O 8 de março é um dia de luta contra a propriedade privada... também no âmbito das relações sociais, do casamento e da sexualidade. Cama, mesa e banho. É isto mesmo... queremos abolir os poderes de latifundiários, empresários, políticos, patrões, maridos e senhores. Horrorizai-vos! O 8 de março é um dia anti-burguês, contra as ridículas homenagens burguesas que tentam continuar emburrecendo as mulheres com tradição, família & propriedade ou flores, bombons & um laço de fita, ou mitos do amor romântico, da beleza e da maternidade. Horrorizai-vos! é contra tudo isso que lutamos, articulando classe-gênero e etnia na construção de um eco-socialismo feminista.

E a burguesia grita!! "Vocês mulheres, feministas, comunistas querem introduzir a comunidade das mulheres!!" É verdade! Já vivemos assim! Já somos comunidade e construímos na luta nossa unidade entre mulheres do campo e da cidade! Não aceitamos ser reduzidas a instrumento de produção e reprodução do capital, da família e do poder masculino. Nós arrancamos nós mesmas das formas violentas e históricas que querem nos manter subordinadas, minorizadas e desiguais.

Neste exato momento centenas de mulheres camponesas do Rio Grande do Sul estão debaixo da lona preta, debaixo do eucaliptal, num dos 200 mil hectares das multi-imperialistas do agronegócio florestal - Aracruz, Votorantin, Stora Enso, Boise... - denunciando que o deserto verde está impedindo a reforma agrária e inviabilizando a agricultura camponesa.

Neste exato momento as mulheres da Via Campesina e suas crianças morrem de pena das árvores enfileiradinhas, da terra ocupada com nada, do alimento que não brota do chão, da água que não tem mais tempo de molhar. Observadas pela Brigada Militar - seus cavalos e cachorros - as mulheres abençoam o mundo e dormem entre o medo e a solidariedade. Toda a campina se ilumina perdoando as árvores de mentira em sua feiúra. E no escuro, elas se fazem Via... láctea, campesina, revolucionária e planejam hortas, pomares e cozinhas de um plano camponês para o Brasil.

Neste exato momento mulheres fortes, atentas e decididas fazem a segurança do acampamento nas terras da Boise. Quem quiser doçura, carinho, afeto e graciosidade... melhor que escreva sobre confeitarias ou almofadas. O grande amor da vida delas vai misturado com a capacidade de saber endurecer... perdendo a paciência quando precisar.

Elas perdoam as mulheres burguesas e suas mentirinhas, as feministas interrompidas e suas teologias, mas não toleram mais discursos gerais sobre mulheres inexistentes, nem elogios da diferença que não fazem diferença alguma. É por dentro da luta de classes que a luta das mulheres trabalhadoras acontece. É por dentro das mulheres que a luta de classes avança.

Horrorizai-vos! Senhores teólogos. O 8 de março chegou anunciando também- contra toda a esperança! - que os dias do deus-pai estão contados e que há de chegar o dia - e já veio - em que se fará teologia com o coração ardente, contra toda violência e propriedade.

* Pastora metodista. Coordenação nacional da Comissao pastoral da terra-CPT

Eu tenho um nome e me chamo Mulher! Fernanda da Silva

Maria, minha irmã

Venho nesta manhã contigo bendizer

A vida que renasce, o sonho que permanece

A luta, a utopia que não se deixa morrer

Quero também eu inclinar-me

Quero também ter coragem de abaixar

Perceber que é possível o túmulo olhar

assim então em ti Senhor abandonar-me

Quero correr os campos

Atravessar as montanhas,

Banhar-me em teus rios

Enxugar meu pranto

Escutar meu nome pronunciado

Vem comigo então Maria

Vem e ensina-me

Mostra-me tua coragem

Pois desejo também eu amar como tu amas

Desejo também percorrer as vinhas

Saltar as janelas para encontrar-me com o Amado

Desejo escutá-lo...

Ouvir a voz do jardineiro: do Deus cuidador

Àquele que toca minhas raízes

E aprofunda meu ser em tuas terras

Meu Deus, Meu Amado, Meu Redentor

Eis que estou aqui minha companheira

Minha querida Madalena

Também quero escutá-lo a pronunciar meu nome

E assim reconhecê-lo

E assim voltar-me-ei aos campos

A bendizer e proclamar

Que também eu vi o Senhor

Também eu senti teu amor

Fernanda Priscila é integrante do projeto Força Feminina e acompanha profissionais do sexo em Salvador/BA. É autora do livro Estações do Crer.

sábado, 17 de dezembro de 2011

TEIAS EM CONSTRUÇÃO

Caros leitores(as) que nos acompanham mensalmente nesta coluna “Teias em construção”.
O assunto que abordaremos nesta edição é primeiramente a partilha da minha experiência como mulher estudando Teologia Feminista, as implicações que isso trouxe para a minha vida e as desconstruções que fui fazendo ao longo do processo.
Eu fui criada num ambiente em que o homem era o forte , aquel que cuidava dos negócios da casa e a mulher como aquela subordinada ao homem, dedicando-se ao cuidado do marido, dos filhos e da casa num todo.
Quando comecei a estudar Teologia Feminista fui compreendendo a partir da História e da Palavra de Deus que a mulher sofria muito por causa da divisão que a sociedade estabelecia entre homem e mulher. Mas, percebe-se que hoje em parte isso ainda continua.
As mulheres percebendo toda essa divisão decidem-se escrever um livro-manifesto, com o tema “Não estamos dispostas a calar” contestando a igualdade sacramental na Igreja. Com o tempo elas vão se organizando e criam um grupo de reflexão teológica que foi denominado “Teologia Feminista” isso nas ultimas décadas. Com isso se introduz no círculo hermenêutico a outra metade da humanidade e da Igreja, enriquecendo a experiência de fé, a sua formulação e as suas expressões.
Quando as mulheres decidiram reverter o caminho já trilhado, muitos foram os desafios enfrentados. Um deles é ao falar da questão de gênero muito vista como identidade masculina e feminina e não como uma categoria relacional. E hoje não é diferente, quando se fala de gênero os comentários são “isso é coisa de mulher”. Mas o que se busca é a igualdade. Ninguém é mais por ser homem ou mulher.
Como já comentávamos, na Palavra de Deus vemos muito relatos de experiências de mulheres presas a um sistema que as mantinha sob a dependência de um homem seja ele pai, marido, irmão ou filho, ou seja, ela não tinha direitos nem liberdade perante a sociedade.
Destaco aqui a coragem de Tamar, uma viúva que vai em busca de seus direitos. Tamar pertencia à tribo de Judá. Ela se casa com Her filho mais velho de Judá, esse morre sem deixar descendência. Tamar segundo a lei do levirato casa-se agora com o irmão de Her, Onã, esse vem a falecer sem deixar descendência. Judá ainda tem mais um filho, que deve ocupar o lugar dos irmãos. Judá manda Tamar para a casa de seu Pai até que o ultimo filho Sela cresça. Passa-se o tempo e Judá não cumpre a lei do levirato. Tamar toma uma decisão, vou me vestir de prostituta e me colocar no caminho para Tamna, pois Judá vai tosquiar suas ovelhas. Judá não a reconhece como sua nora e tem relações sexuais com ela. Tamar pede a ele objetos de seu uso pessoal como provas. Tamar fica grávida e mostra que ela foi mais fiel a lei do que Judá. Tamar, como tantas outras mulheres nos interpelam na busca pela descontrução de certas mentalidades impostas. Caro leitor (a) para uma maior reflexão leia o texto na integra – Gn 38,1-26.
Na Bíblia percebemos também fatos que revelam como a afetividade e a sexualidade eram vivenciadas. No livro do Levítico e Cântico dos Cânticos vemos a mulher como pessoa impura por ser filha de uma mulher. O sexo era visto como impuro. Tanto ao dar a luz , ter relações ou estar no período menstrual tornava a mulher impura e isso a impedia de participar das celebrações do templo, tocar nos filhos, maridos e outras pessoas entre outras recomendações. O livro do Cântico dos Cânticos é um livro que retrata um novo olhar sobre a sexualidade humana. A circuncisão era o rito de passagem dos meninos que permitia a ele pertencer ao povo de Deus, ser incluído na aliança. As mulheres não faziam a circuncisão e isso afirmava que a mulher só poderia chegar a Deus intermediada por um homem. Jesus veio quebrar essa barreira. Pelo sacramento do Batismo todos (as) se tornam filhos (as) de Deus, criados (as) a imagem e semelhança de Deus. Os gregos viam o corpo como algo negativo, pecaminoso. Deus criou homem e mulher a sua imagem- sexualidade como sagrada. Jesus pela sua encarnação divinizou o humano e humanizou o divino. Isso diz para nós que em qualquer lugar onde estão o homem e a mulher tanto em casa, na cama ou no trabalho se faz necessário estabelecer relações de igualdade.
Jesus ia ao encontro das mulheres e elas vinham até Ele. Aqui quero destacar o encontro de Jesus com Marta e Maria. Jesus chega na casa de Marta. Marta era quem coordenava a Igreja que se reunia em sua casa. Maria era aquela que simplesmente ouvia. Jesus ao visita-las provoca em Marta certos questionamentos. O que devo fazer, servir ou permanecer passiva? Marta faz um discernimento e Jesus dá a ela uma vocação. Marta vê,crê e anuncia. Maria ouve os ensinamentos de Jesus. Percebe-se neste texto que nos foi que Marta era preocupada com os afazeres de casa – o fazer e Maria aquela que era mais passiva, reflexiva – o ser. Quando percebi que por trás disso tudo está a vocação de Marta, vi um novo modo de perceber as mulheres como protagonistas em uma comunidade, que questionam e buscam entender a sua missão.
Muito foi o que aprendi a partir da visão feminina da Bíblia, de que tudo o que está escrito tem algo a nos transmitir, traços marcantes na história do Povo de Deus.
Caro leitor (a). Que bom saber que você nos acompanha a cada nova edição. Espero que a minha partilha tenha enriquecido a maneira de se relacionar num discipulado de iguais de irmãos ((as) criados a imagem e semelhança de Deus. Obrigada pela sua atenção. Até a próxima edição trazendo para você assuntos de grande importância no nosso mundo teológico.

Pela edição: Karina Skorek

Este foi o trabalho de síntese – avaliação G2 – da disciplina de Teologia Feminista orientada por Lucia Weiler no Curso Básico de Teologia, na ESTEF – 2011.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Recordando: ''A flagrante discriminação da mulher na Igreja é um escândalo''


Médica, teóloga e monja de clausura. A beneditina do mosteiro de St. Benet de Montserrat Teresa Forcades, entretanto, é conhecida em todo o mundo. Um vídeo no youtube contra as multinacionais e a armação da gripe A, catapultou-a para a fama.

Entrevistei-a em Madri, no dia 07 de outubro, por ocasião da apresentação do seu livro A teologia feminista na História. Irmã Teresa afirma que a situação de marginalização da mulher na Igreja é “um escândalo” e que “nenhum Papa se atreveu a proibir ex-cathedra o sacerdócio feminino”. Mas também reconhece que é na Igreja e em seu mosteiro onde se sente mais respeitada como mulher.

A entrevista foi concedida à José Manuel Vidal e publicada peloReligión Digital, 23-10-2011. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Por que uma monja da clausura como você escreveu um livro sobre a ‘Teologia feminista na História’? O livro foi uma proposta da editora Fragmenta. E propuseram porque sabiam que me formei com a teóloga Elizabeth Schüssler Fiorenza. Conheci-a em Barcelona em 1992, antes das Olimpíadas. Eu iria estudar nos Estados Unidos, especializar-me em medicina. Ela vinha de Harvard e fez uma conferência. Uma conferência na qual se rompeu a comunicação porque a tradutora que sabia muito inglês, não sabia nada de teologia. Ajudei na tradução do inglês para o catalão e se salvou a situação. Elizabeth ficou encantada e me convidou a visitá-la em Harvard. Ao final, foi ela que acabou vindo a Buffalo, no norte do Estado de Nova York, onde estava em meu hospital, para dar outra conferência.

E foi novamente a tradutora espontânea?

Fui a sua conferência, onde não precisei traduzir, e voltamos a nos encontrar. E, como consequência, comecei a traduzir um dos seus livros ao catalão, seu livro de hermenêutica bíblica feminista. Gostei muito do livro e o traduzi para aprofundar o conteúdo. Quando acabei a tradução, fui conversar algumas vezes com Schüssler Fiorenza, para falar de minhas dúvidas e reflexões. Ela, à vista de como recebeu, entendeu e processou o seu livro, animou-me a estudar Teologia e escreveu uma carta recomendando-me estudar em Harvard.

Um percurso que a editora conhecia.

Efetivamente, além disso, havia dado umas conferências sobre teologia feminista em Barcelona. E quando a editora lançou essa coleção de livros breves, introdutórios, que pudéssem servir de manual nas Universidades para introduzir uma disciplina teológica, me pediram o livro que eu aceitei como muito gosto.

Com teóloga feminista lhe magoa especialmenta a atual situação da mulher na Igreja?

A situação da mulher na Igreja tem uma história complexa que inclui tanto a discriminação quanto a promoção. A discriminação magoa qualquer pessoa que seja a favor da justiça e que compreenda que o Evangelho implica crescimento humano em todos os níveis. No Evangelho, se aprende também o realismo de saber que quando uma pessoa tenta viver a mensagem de Jesus, fica à margem. Nesse sentido, a situação das mulheres é testemunho de que há verdades cujo lugar estará sempre à margem até a escatologia final.

Ou seja, que você se sente preparada para continuar na margem ou na fronteira e sem aspirar ao altar.

A dinâmica da margem evangélica consiste, a meu juízo, na promoção da justiça em todos os níveis, mas com o realismo de saber que, quando se consegue um passo a frente, se gera um processo no qual aquele que não quer ficar acomodado continuará encontrando razões para continuar caminhando até as margens. Daí minha defesa teológica das margens.

E a proibição da presença feminina no altar?

A conclusão da comissão bíblica pontifícia, a que Paulo VI pediu que estudasse o tema, foi de que não há razão bíblica alguma para privar o acesso das mulheres ao ministério ordenado. Isso foi no ano de 1976. Em 1974, realizaram-se as primeiras ordenações de mulheres na Igreja episcopaliana. Paulo VI percebeu que iria se produzir a mesma demanda na Igreja Católica e, por isso, pediu para a comissão pontifícia que estudasse o tema.

O que diz de concreto o documento da comissão pontifícia?

Assegura que nas Escrituras não há nada contra. Depois de conhecer as conclusões da comissão, Paulo VI publicou um motu proprio no qual considerava que não se devia ordenar mulheres na Igreja Católica.

Mais a frente veio a tentativa de fechamento definitivo da questão por parte de João Paulo II.

Sim, mas nenhum Papa se atreveu a proclamar essa proibição ex-cathedra.

Esta flagrante discriminação da mulher na Igreja é um escândalo?

Sim. Recomento a quem queira aprofundar esse tema o livro de Gary Macy A história oculta da ordenação das mulheres.

E como se vive essa situação num momento em que a sociedade civil avança na paridade de direitos?

Não gosto do esquema em que se coloca a sociedade civil na vanguarda e a Igreja na retaguarda em algo que deveria ser a pioneira. Entendo que a situação entre homem e mulher e a maneira de conceber o feminino e o masculino numa sociedade contemporânea ocidental deixa muito de ser satisfatória. O que mais me interessa debater teologicamente atualmente são as teorias de Lacan e de alguns pós-estruturalistas contemporâneos. Porque, no momento e reconhecendo que podem existir outras pessoas que tenham vivido experiência contrária, particularmente onde me senti mais respeitada em meu ser mulher é na Igreja e, em concreto, no meu mosteiro. Em comparação com outros lugares, como pode ser no hospital ou na Universidade, fico com o mosteiro, como espaço de liberdade e respeito. Em minha relação com os monges de Montserrat, por exemplo, descobri possibilidades de interação mais ricas do que em geral que vivi e observei entre homens e mulheres que são colegas no hospital ou na universidade.

Então, a Igreja não tão anti-feminina como se diz.

Veja, é preciso começar a falar desse tema com verdade, porque, do contrário, parece que temos de um lado uma sociedade liberada, oásis ou meca para as mulheres e, por outro, a Igreja que é uma instituição de opressão e de desastre. Minha experiência diz o contrário. Porque, se assim não fosse, quem sabe eu já não estaria aqui.

Quer dizer que há um espaço de liberdade enorme dentro da Igreja apesar de tudo?

Sempre houve. O que acontece é que também é preciso denunciar que, entre os quadros de mando da Igreja há uma falta absoluta de representação das mulheres. E é esse o escândalo de que falamos.

Liberdade para as mulheres na Igreja-povo de Deus e falta de representatividade na sua hierarquia.

Temos que mudar essa noção de Igreja que olha primeiro para cima. Para falar da Igreja, temos primeiro que olhar para baixo. E embaixo encontramos fundadoras iniciativas que não tem correlato no mundo civil, ao menos até agora. Vamos ver o que acontece no século XXI.

Acusam-lhe de heresias, os setores mais conservadores e alguns sites. Tem medo?

Lembro da “perfeita alegria” de São Francisco e acredito que o essencial para um cristão é saber que quando todos te aplaudem, alguma coisa não vai bem. Desatar iras de certos setores, por outro lado, não é garantia de que as coisas vão bem, mas é um pouco melhor de quando todos te aplaudem.

A Igreja hierárquica espanhola está muito fechada em si mesma e exerce um excessivo controle?

Está claro que, desde o Vaticano II, houve uma involução. E, na igreja espanhola se pode constatar que o medo existe e que há falta de liberdade para falar com vozes diferentes que é o que acontece quando as pessoas falam a partir de sua experiência. Essa uniformidade de expressão é muito preocupante.

Falta pluralismo na Igreja espanhola. Ou dito de outra forma, são capazes os bispos espanhóis de assumir que há diferentes modelos ou diferentes sensibilidades eclesiais e que todas são válidas?

Há muitos bispos que são capazes. O problema é que não é apenas questão de aceitar isso, mas sim de vivê-lo. Os bispos tem o dever-direito de exercer sua responsabilidade pastoral de acordo com sua propria consciência, não podem simplesmente suprir seu critério com o critério que vem desde cima. Nesse sentido, o bispo não apenas aceita a pluralidade, mas também se converte em gerador da mesma e a vive.

Você é religiosa beneditina. A vida religiosa tem futuro ou terminou o seu tempo. Como a vê?

A vejo muito bem. A vida religiosa tem mudado ao longo da história e apenas terá futuro se continuar mudando. A mudança é inerente à vida religiosa e apenas quem não muda tende a desaparecer. As beneditinas estão acabando, mas esses espaços de comunidade de pessoas que entendem que suas vidas não se plenificam em uma vida de casal, sem a relação de comunidade sempre existirão. Porque, além disso, são pessoas que dão testemunho de que esse é o modelo para todos no mundo escatológico.

A vida religiosa como antecipação da vida celestial.

Esta é a antropologia cristã. A vida de casal é sacramento do mesmo amor de Deus, mas é de uma forma temporal. A vida de comunidade é de forma escatológica, porque Deus nos chama a ser pessoas que compreendam que a relação com toda humanidade, com todas e todos aqueles criados a imagem de Deus, é uma relação de amor absoluto, uma relação de dar e receber como a da Trindade. Esta vida de comunhão trinitária é que a utopia cristã nos propõe.

Mas isso também se pode viver no matrimônio: estar aberto a todos e amar a todos.

Claro, mas o matrimônio é até que a morte nos separe. E por isso dizia Jesus: “Não compreendem”. Porque, no céu, as pessoas não se casam.

Seu vídeo de 2009, denunciando a montagem da famosa gripe A, teve tanta repercussão porque desmontava a superficialidade na qual se movem os grandes poderes da informação num mundo globalizado?

É preciso ser claro na crítica a este desastre da sociedade contemporânea que é o aumento da desigualdade riqueza-pobreza nos últimos 50 anos. Esse é um escândalo muito maior que a injustiça com as mulheres na Igreja da que acabamos de falar, ainda que não haja muito sentido em comparar injustiças, porque cada uma é absoluta em si mesma. Há muito o que criticar na sociedade contemporânea, mas não como um slogan. Porque se é certo que existe essa superficialidade, também é fato de que, pela primeiva vez, há pessoas que realmente acreditam que não se deve esperar que a solução venha de cima.

É o que vemos nessa crescente indignação em todos os lugares, incluindo no mundo árabe?

Estou muito preocupada pelo o que está acontecendo na Líbia, na Síria. Ou pelo que possa vir acontecer no Irã. Especialmente a partir da perspectiva das grandes mentiras políticas. Já o fizeram duas vezes, mas parece que não aprendemos. Aconteceu no Iraque e depois lamentamos. E com Gadafi creio que aconteceu o mesmo. Mente-se para justificar a intervenção militar. Por que não intervimos na Arábia Saudita para liberar as mulhres se o fazemos no Afeganistão?

Gostaria que o Papa fosse à Somália num gesto profético que detivésse ou interrompesse a morte de tantas pessoas e tantas crianças inocentes?

Esse pode ser outro desses slogans de que desejaria afastar-me. Quem sabe agora, quando todo mundo está olhando a Somália, gostaria que o Papa fosse a outra parte. Porque os desastres proliferam. Por exemplo, o que está acontecendo no Sudão?

Os meios de comunicação nos enganam?

Tenho a impressão, confirmada no caso da gripe A, de que outro, dos maiores escândalos atuais é a falta de liberdade no mundo da informação. Há mais liberdade jornalísitca em Periodista Digital ou em Vida Nueva do que no El País ou no La Vanguardia.

Voltamos ao lugar de onde começamos: na Igreja se vive melhor.

Não gostaria de morder a língua na hora de criticar o condenável da Igreja, mas ninguém me peça que diga que na sociedade civil há maior liberdade de que na Igreja, porque não é certo. O que não quer dizer que a Igreja não tenha nada a aprender com a sociedade não eclesial. O que fez sempre.

Participou ou viu a JMJ? O que lhe parece esse tipo de evento?

Não vi muito. Participaram três irmãs mais jovens do mosteiro e voltaram muito contentes. O evento macro-eclesial quem sabe seja um sinal dos tempos. Assisti na Venezuela a um desses eventos macro por motivo do aniversário de 90 anos da morte de monsenhor Romero e me pareceu algo extraordinário. O mesmo pode acontecer com as pessoas que foram ver o Papa. Esses grandes eventos eclesiais quem sabe sejam um sinal dos tempos de século XXI. O importante é o tipo de mensagem que com eles se transmite e como se utilizam esses espaços.

E como o utilizaram na JMJ?

Creio que houve um predomínio de articulações conservadoras ou de mensagens para os jovens no esquema nós-eles (Igreja-Sociedade), mas também houve espaços onde se pode partilhar a fé com uma visão mais aberta.

Tem esperança no futuro da sociedade e da Igreja? É você uma mulher esperançosa?

Sim.

Por exemplo, poderemos ver uma mudança na Igreja a curto prazo?

Mais do que a curto prazo, hoje mesmo. Gostaria de ter sobre a realidade o olhar que Jesus nos pede. Um olhar de que os campos estão dourados ou maduros e apenas faltam os ceifadores. Esse olhar que vê, como diz São Paulo, que o mundo está grávido de Deus. Ou, inclusive já de parto e em lugares onde ninguém espera. Isso é o que dá esperança.


Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_entrevistas&Itemid=29&task=entrevista&id=48693