sábado, 17 de dezembro de 2011

TEIAS EM CONSTRUÇÃO

Caros leitores(as) que nos acompanham mensalmente nesta coluna “Teias em construção”.
O assunto que abordaremos nesta edição é primeiramente a partilha da minha experiência como mulher estudando Teologia Feminista, as implicações que isso trouxe para a minha vida e as desconstruções que fui fazendo ao longo do processo.
Eu fui criada num ambiente em que o homem era o forte , aquel que cuidava dos negócios da casa e a mulher como aquela subordinada ao homem, dedicando-se ao cuidado do marido, dos filhos e da casa num todo.
Quando comecei a estudar Teologia Feminista fui compreendendo a partir da História e da Palavra de Deus que a mulher sofria muito por causa da divisão que a sociedade estabelecia entre homem e mulher. Mas, percebe-se que hoje em parte isso ainda continua.
As mulheres percebendo toda essa divisão decidem-se escrever um livro-manifesto, com o tema “Não estamos dispostas a calar” contestando a igualdade sacramental na Igreja. Com o tempo elas vão se organizando e criam um grupo de reflexão teológica que foi denominado “Teologia Feminista” isso nas ultimas décadas. Com isso se introduz no círculo hermenêutico a outra metade da humanidade e da Igreja, enriquecendo a experiência de fé, a sua formulação e as suas expressões.
Quando as mulheres decidiram reverter o caminho já trilhado, muitos foram os desafios enfrentados. Um deles é ao falar da questão de gênero muito vista como identidade masculina e feminina e não como uma categoria relacional. E hoje não é diferente, quando se fala de gênero os comentários são “isso é coisa de mulher”. Mas o que se busca é a igualdade. Ninguém é mais por ser homem ou mulher.
Como já comentávamos, na Palavra de Deus vemos muito relatos de experiências de mulheres presas a um sistema que as mantinha sob a dependência de um homem seja ele pai, marido, irmão ou filho, ou seja, ela não tinha direitos nem liberdade perante a sociedade.
Destaco aqui a coragem de Tamar, uma viúva que vai em busca de seus direitos. Tamar pertencia à tribo de Judá. Ela se casa com Her filho mais velho de Judá, esse morre sem deixar descendência. Tamar segundo a lei do levirato casa-se agora com o irmão de Her, Onã, esse vem a falecer sem deixar descendência. Judá ainda tem mais um filho, que deve ocupar o lugar dos irmãos. Judá manda Tamar para a casa de seu Pai até que o ultimo filho Sela cresça. Passa-se o tempo e Judá não cumpre a lei do levirato. Tamar toma uma decisão, vou me vestir de prostituta e me colocar no caminho para Tamna, pois Judá vai tosquiar suas ovelhas. Judá não a reconhece como sua nora e tem relações sexuais com ela. Tamar pede a ele objetos de seu uso pessoal como provas. Tamar fica grávida e mostra que ela foi mais fiel a lei do que Judá. Tamar, como tantas outras mulheres nos interpelam na busca pela descontrução de certas mentalidades impostas. Caro leitor (a) para uma maior reflexão leia o texto na integra – Gn 38,1-26.
Na Bíblia percebemos também fatos que revelam como a afetividade e a sexualidade eram vivenciadas. No livro do Levítico e Cântico dos Cânticos vemos a mulher como pessoa impura por ser filha de uma mulher. O sexo era visto como impuro. Tanto ao dar a luz , ter relações ou estar no período menstrual tornava a mulher impura e isso a impedia de participar das celebrações do templo, tocar nos filhos, maridos e outras pessoas entre outras recomendações. O livro do Cântico dos Cânticos é um livro que retrata um novo olhar sobre a sexualidade humana. A circuncisão era o rito de passagem dos meninos que permitia a ele pertencer ao povo de Deus, ser incluído na aliança. As mulheres não faziam a circuncisão e isso afirmava que a mulher só poderia chegar a Deus intermediada por um homem. Jesus veio quebrar essa barreira. Pelo sacramento do Batismo todos (as) se tornam filhos (as) de Deus, criados (as) a imagem e semelhança de Deus. Os gregos viam o corpo como algo negativo, pecaminoso. Deus criou homem e mulher a sua imagem- sexualidade como sagrada. Jesus pela sua encarnação divinizou o humano e humanizou o divino. Isso diz para nós que em qualquer lugar onde estão o homem e a mulher tanto em casa, na cama ou no trabalho se faz necessário estabelecer relações de igualdade.
Jesus ia ao encontro das mulheres e elas vinham até Ele. Aqui quero destacar o encontro de Jesus com Marta e Maria. Jesus chega na casa de Marta. Marta era quem coordenava a Igreja que se reunia em sua casa. Maria era aquela que simplesmente ouvia. Jesus ao visita-las provoca em Marta certos questionamentos. O que devo fazer, servir ou permanecer passiva? Marta faz um discernimento e Jesus dá a ela uma vocação. Marta vê,crê e anuncia. Maria ouve os ensinamentos de Jesus. Percebe-se neste texto que nos foi que Marta era preocupada com os afazeres de casa – o fazer e Maria aquela que era mais passiva, reflexiva – o ser. Quando percebi que por trás disso tudo está a vocação de Marta, vi um novo modo de perceber as mulheres como protagonistas em uma comunidade, que questionam e buscam entender a sua missão.
Muito foi o que aprendi a partir da visão feminina da Bíblia, de que tudo o que está escrito tem algo a nos transmitir, traços marcantes na história do Povo de Deus.
Caro leitor (a). Que bom saber que você nos acompanha a cada nova edição. Espero que a minha partilha tenha enriquecido a maneira de se relacionar num discipulado de iguais de irmãos ((as) criados a imagem e semelhança de Deus. Obrigada pela sua atenção. Até a próxima edição trazendo para você assuntos de grande importância no nosso mundo teológico.

Pela edição: Karina Skorek

Este foi o trabalho de síntese – avaliação G2 – da disciplina de Teologia Feminista orientada por Lucia Weiler no Curso Básico de Teologia, na ESTEF – 2011.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Recordando: ''A flagrante discriminação da mulher na Igreja é um escândalo''


Médica, teóloga e monja de clausura. A beneditina do mosteiro de St. Benet de Montserrat Teresa Forcades, entretanto, é conhecida em todo o mundo. Um vídeo no youtube contra as multinacionais e a armação da gripe A, catapultou-a para a fama.

Entrevistei-a em Madri, no dia 07 de outubro, por ocasião da apresentação do seu livro A teologia feminista na História. Irmã Teresa afirma que a situação de marginalização da mulher na Igreja é “um escândalo” e que “nenhum Papa se atreveu a proibir ex-cathedra o sacerdócio feminino”. Mas também reconhece que é na Igreja e em seu mosteiro onde se sente mais respeitada como mulher.

A entrevista foi concedida à José Manuel Vidal e publicada peloReligión Digital, 23-10-2011. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Por que uma monja da clausura como você escreveu um livro sobre a ‘Teologia feminista na História’? O livro foi uma proposta da editora Fragmenta. E propuseram porque sabiam que me formei com a teóloga Elizabeth Schüssler Fiorenza. Conheci-a em Barcelona em 1992, antes das Olimpíadas. Eu iria estudar nos Estados Unidos, especializar-me em medicina. Ela vinha de Harvard e fez uma conferência. Uma conferência na qual se rompeu a comunicação porque a tradutora que sabia muito inglês, não sabia nada de teologia. Ajudei na tradução do inglês para o catalão e se salvou a situação. Elizabeth ficou encantada e me convidou a visitá-la em Harvard. Ao final, foi ela que acabou vindo a Buffalo, no norte do Estado de Nova York, onde estava em meu hospital, para dar outra conferência.

E foi novamente a tradutora espontânea?

Fui a sua conferência, onde não precisei traduzir, e voltamos a nos encontrar. E, como consequência, comecei a traduzir um dos seus livros ao catalão, seu livro de hermenêutica bíblica feminista. Gostei muito do livro e o traduzi para aprofundar o conteúdo. Quando acabei a tradução, fui conversar algumas vezes com Schüssler Fiorenza, para falar de minhas dúvidas e reflexões. Ela, à vista de como recebeu, entendeu e processou o seu livro, animou-me a estudar Teologia e escreveu uma carta recomendando-me estudar em Harvard.

Um percurso que a editora conhecia.

Efetivamente, além disso, havia dado umas conferências sobre teologia feminista em Barcelona. E quando a editora lançou essa coleção de livros breves, introdutórios, que pudéssem servir de manual nas Universidades para introduzir uma disciplina teológica, me pediram o livro que eu aceitei como muito gosto.

Com teóloga feminista lhe magoa especialmenta a atual situação da mulher na Igreja?

A situação da mulher na Igreja tem uma história complexa que inclui tanto a discriminação quanto a promoção. A discriminação magoa qualquer pessoa que seja a favor da justiça e que compreenda que o Evangelho implica crescimento humano em todos os níveis. No Evangelho, se aprende também o realismo de saber que quando uma pessoa tenta viver a mensagem de Jesus, fica à margem. Nesse sentido, a situação das mulheres é testemunho de que há verdades cujo lugar estará sempre à margem até a escatologia final.

Ou seja, que você se sente preparada para continuar na margem ou na fronteira e sem aspirar ao altar.

A dinâmica da margem evangélica consiste, a meu juízo, na promoção da justiça em todos os níveis, mas com o realismo de saber que, quando se consegue um passo a frente, se gera um processo no qual aquele que não quer ficar acomodado continuará encontrando razões para continuar caminhando até as margens. Daí minha defesa teológica das margens.

E a proibição da presença feminina no altar?

A conclusão da comissão bíblica pontifícia, a que Paulo VI pediu que estudasse o tema, foi de que não há razão bíblica alguma para privar o acesso das mulheres ao ministério ordenado. Isso foi no ano de 1976. Em 1974, realizaram-se as primeiras ordenações de mulheres na Igreja episcopaliana. Paulo VI percebeu que iria se produzir a mesma demanda na Igreja Católica e, por isso, pediu para a comissão pontifícia que estudasse o tema.

O que diz de concreto o documento da comissão pontifícia?

Assegura que nas Escrituras não há nada contra. Depois de conhecer as conclusões da comissão, Paulo VI publicou um motu proprio no qual considerava que não se devia ordenar mulheres na Igreja Católica.

Mais a frente veio a tentativa de fechamento definitivo da questão por parte de João Paulo II.

Sim, mas nenhum Papa se atreveu a proclamar essa proibição ex-cathedra.

Esta flagrante discriminação da mulher na Igreja é um escândalo?

Sim. Recomento a quem queira aprofundar esse tema o livro de Gary Macy A história oculta da ordenação das mulheres.

E como se vive essa situação num momento em que a sociedade civil avança na paridade de direitos?

Não gosto do esquema em que se coloca a sociedade civil na vanguarda e a Igreja na retaguarda em algo que deveria ser a pioneira. Entendo que a situação entre homem e mulher e a maneira de conceber o feminino e o masculino numa sociedade contemporânea ocidental deixa muito de ser satisfatória. O que mais me interessa debater teologicamente atualmente são as teorias de Lacan e de alguns pós-estruturalistas contemporâneos. Porque, no momento e reconhecendo que podem existir outras pessoas que tenham vivido experiência contrária, particularmente onde me senti mais respeitada em meu ser mulher é na Igreja e, em concreto, no meu mosteiro. Em comparação com outros lugares, como pode ser no hospital ou na Universidade, fico com o mosteiro, como espaço de liberdade e respeito. Em minha relação com os monges de Montserrat, por exemplo, descobri possibilidades de interação mais ricas do que em geral que vivi e observei entre homens e mulheres que são colegas no hospital ou na universidade.

Então, a Igreja não tão anti-feminina como se diz.

Veja, é preciso começar a falar desse tema com verdade, porque, do contrário, parece que temos de um lado uma sociedade liberada, oásis ou meca para as mulheres e, por outro, a Igreja que é uma instituição de opressão e de desastre. Minha experiência diz o contrário. Porque, se assim não fosse, quem sabe eu já não estaria aqui.

Quer dizer que há um espaço de liberdade enorme dentro da Igreja apesar de tudo?

Sempre houve. O que acontece é que também é preciso denunciar que, entre os quadros de mando da Igreja há uma falta absoluta de representação das mulheres. E é esse o escândalo de que falamos.

Liberdade para as mulheres na Igreja-povo de Deus e falta de representatividade na sua hierarquia.

Temos que mudar essa noção de Igreja que olha primeiro para cima. Para falar da Igreja, temos primeiro que olhar para baixo. E embaixo encontramos fundadoras iniciativas que não tem correlato no mundo civil, ao menos até agora. Vamos ver o que acontece no século XXI.

Acusam-lhe de heresias, os setores mais conservadores e alguns sites. Tem medo?

Lembro da “perfeita alegria” de São Francisco e acredito que o essencial para um cristão é saber que quando todos te aplaudem, alguma coisa não vai bem. Desatar iras de certos setores, por outro lado, não é garantia de que as coisas vão bem, mas é um pouco melhor de quando todos te aplaudem.

A Igreja hierárquica espanhola está muito fechada em si mesma e exerce um excessivo controle?

Está claro que, desde o Vaticano II, houve uma involução. E, na igreja espanhola se pode constatar que o medo existe e que há falta de liberdade para falar com vozes diferentes que é o que acontece quando as pessoas falam a partir de sua experiência. Essa uniformidade de expressão é muito preocupante.

Falta pluralismo na Igreja espanhola. Ou dito de outra forma, são capazes os bispos espanhóis de assumir que há diferentes modelos ou diferentes sensibilidades eclesiais e que todas são válidas?

Há muitos bispos que são capazes. O problema é que não é apenas questão de aceitar isso, mas sim de vivê-lo. Os bispos tem o dever-direito de exercer sua responsabilidade pastoral de acordo com sua propria consciência, não podem simplesmente suprir seu critério com o critério que vem desde cima. Nesse sentido, o bispo não apenas aceita a pluralidade, mas também se converte em gerador da mesma e a vive.

Você é religiosa beneditina. A vida religiosa tem futuro ou terminou o seu tempo. Como a vê?

A vejo muito bem. A vida religiosa tem mudado ao longo da história e apenas terá futuro se continuar mudando. A mudança é inerente à vida religiosa e apenas quem não muda tende a desaparecer. As beneditinas estão acabando, mas esses espaços de comunidade de pessoas que entendem que suas vidas não se plenificam em uma vida de casal, sem a relação de comunidade sempre existirão. Porque, além disso, são pessoas que dão testemunho de que esse é o modelo para todos no mundo escatológico.

A vida religiosa como antecipação da vida celestial.

Esta é a antropologia cristã. A vida de casal é sacramento do mesmo amor de Deus, mas é de uma forma temporal. A vida de comunidade é de forma escatológica, porque Deus nos chama a ser pessoas que compreendam que a relação com toda humanidade, com todas e todos aqueles criados a imagem de Deus, é uma relação de amor absoluto, uma relação de dar e receber como a da Trindade. Esta vida de comunhão trinitária é que a utopia cristã nos propõe.

Mas isso também se pode viver no matrimônio: estar aberto a todos e amar a todos.

Claro, mas o matrimônio é até que a morte nos separe. E por isso dizia Jesus: “Não compreendem”. Porque, no céu, as pessoas não se casam.

Seu vídeo de 2009, denunciando a montagem da famosa gripe A, teve tanta repercussão porque desmontava a superficialidade na qual se movem os grandes poderes da informação num mundo globalizado?

É preciso ser claro na crítica a este desastre da sociedade contemporânea que é o aumento da desigualdade riqueza-pobreza nos últimos 50 anos. Esse é um escândalo muito maior que a injustiça com as mulheres na Igreja da que acabamos de falar, ainda que não haja muito sentido em comparar injustiças, porque cada uma é absoluta em si mesma. Há muito o que criticar na sociedade contemporânea, mas não como um slogan. Porque se é certo que existe essa superficialidade, também é fato de que, pela primeiva vez, há pessoas que realmente acreditam que não se deve esperar que a solução venha de cima.

É o que vemos nessa crescente indignação em todos os lugares, incluindo no mundo árabe?

Estou muito preocupada pelo o que está acontecendo na Líbia, na Síria. Ou pelo que possa vir acontecer no Irã. Especialmente a partir da perspectiva das grandes mentiras políticas. Já o fizeram duas vezes, mas parece que não aprendemos. Aconteceu no Iraque e depois lamentamos. E com Gadafi creio que aconteceu o mesmo. Mente-se para justificar a intervenção militar. Por que não intervimos na Arábia Saudita para liberar as mulhres se o fazemos no Afeganistão?

Gostaria que o Papa fosse à Somália num gesto profético que detivésse ou interrompesse a morte de tantas pessoas e tantas crianças inocentes?

Esse pode ser outro desses slogans de que desejaria afastar-me. Quem sabe agora, quando todo mundo está olhando a Somália, gostaria que o Papa fosse a outra parte. Porque os desastres proliferam. Por exemplo, o que está acontecendo no Sudão?

Os meios de comunicação nos enganam?

Tenho a impressão, confirmada no caso da gripe A, de que outro, dos maiores escândalos atuais é a falta de liberdade no mundo da informação. Há mais liberdade jornalísitca em Periodista Digital ou em Vida Nueva do que no El País ou no La Vanguardia.

Voltamos ao lugar de onde começamos: na Igreja se vive melhor.

Não gostaria de morder a língua na hora de criticar o condenável da Igreja, mas ninguém me peça que diga que na sociedade civil há maior liberdade de que na Igreja, porque não é certo. O que não quer dizer que a Igreja não tenha nada a aprender com a sociedade não eclesial. O que fez sempre.

Participou ou viu a JMJ? O que lhe parece esse tipo de evento?

Não vi muito. Participaram três irmãs mais jovens do mosteiro e voltaram muito contentes. O evento macro-eclesial quem sabe seja um sinal dos tempos. Assisti na Venezuela a um desses eventos macro por motivo do aniversário de 90 anos da morte de monsenhor Romero e me pareceu algo extraordinário. O mesmo pode acontecer com as pessoas que foram ver o Papa. Esses grandes eventos eclesiais quem sabe sejam um sinal dos tempos de século XXI. O importante é o tipo de mensagem que com eles se transmite e como se utilizam esses espaços.

E como o utilizaram na JMJ?

Creio que houve um predomínio de articulações conservadoras ou de mensagens para os jovens no esquema nós-eles (Igreja-Sociedade), mas também houve espaços onde se pode partilhar a fé com uma visão mais aberta.

Tem esperança no futuro da sociedade e da Igreja? É você uma mulher esperançosa?

Sim.

Por exemplo, poderemos ver uma mudança na Igreja a curto prazo?

Mais do que a curto prazo, hoje mesmo. Gostaria de ter sobre a realidade o olhar que Jesus nos pede. Um olhar de que os campos estão dourados ou maduros e apenas faltam os ceifadores. Esse olhar que vê, como diz São Paulo, que o mundo está grávido de Deus. Ou, inclusive já de parto e em lugares onde ninguém espera. Isso é o que dá esperança.


Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_entrevistas&Itemid=29&task=entrevista&id=48693

Livro


O Dia Nacional da Juventude (DNJ) será celebrado na Arquidiocese de São Paulo no dia 6 de novembro, com o tema “Juventude e protagonismo feminino” e o lema: “Jovens mulheres tecendo relações de vida”. O lançamento da editora Paulus "MULHERES NA VIDA DE JESUS, a história das primeiras discípulas", ajuda a refletir sobre este tema. Trata-se de um romance bíblico e pode ser adquirido por R$ 16,00 nas livrarias Paulus ,Paulinas, Siciliano, Cultura, Loyola, Curitiba, outras e pela Internet. Há várias informações sobre ele no Google.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Reconhecer a diversidade para mudar a sociedade

Entrevista especial com Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva

Com o objetivo de falar sobre o rosto africano, esteve na Unisinos na última semana a professoraPetronilha Beatriz Gonçalves e Silva, da Universidade Federal de São Carlos. Na ocasião, ela concedeu pessoalmente a entrevista a seguir para a IHU On-Line, quando afirmou que “existem dificuldades de relação entre os grupos étnico-raciais decorrentes de uma visão segundo a qual a nossa sociedade seria monocultural ou preferencialmente de raiz europeia, quando nossa sociedade é notadamente de raiz indígena, dos povos originários e também africana”.

Para ela, “o país, como um todo, quer se ver única ou preferencialmente de raiz europeia. Esse é o problema central. Somos uma sociedade pluricultural, diversa e que cria um mito de que viveríamos todos tão harmonicamente que teríamos nos esquecido de nossas raízes. E esse mito funciona na medida em que as pessoas se convertem a um modo de ser que não é o seu próprio, sendo que essa conversão anula sua raiz básica”. E completa: “as pessoas costumavam dizer que o racismo no Rio Grande do Sul devia ser maior porque havia muita influência europeia, e eu, como eu sou gaúcha de Porto Alegre, sempre disse que é difícil medir isso. Mas desde as últimas manifestações que temos visto, começo a crer que quem vê de fora parece que vê melhor”.

Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva possui graduação em Português e Francês, mestrado em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e doutorado em Ciências Humanas –Educação pela mesma universidade. Cursou especialização em Planejamento e Administração da Educação no Instituto Internacional de Planejamento da Unesco, em Paris. Realizou estágio de pós-doutorado em Teoria da Educação, na University of South Africa, em Pretoria, África do Sul. Por indicação do Movimento Negro, foi conselheira da Câmara de Educação Superior do Conselho Nacional de Educação, mandato 2002-2006. Nesta condição foi relatora do Parecer CNE/CP 3/2004 que estabelece as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afrobrasileira e Africana e participou da relatoria do Parecer CNE/CP 3/2005 relativo às Diretrizes Curriculares Nacionais para o curso de Pedagogia. Atualmente, é professora na Universidade Federal de São Carlos, em São Paulo.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como a senhora descreve o rosto africano aqui no Brasil? O que o caracteriza?

Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva –
A cor da pele, que todo mundo vê, de saída; a ancestralidade; a cultura e a história enraizada na África; o modo de ser e viver; e a religiosidade. É isso que caracteriza o rosto africano no Brasil e na América Latina.

IHU On-Line – Como a questão étnico-racial aparece na educação brasileira hoje?

Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva –
Não sei se temos uma questão étnico-racial. Existem dificuldades de relação entre os grupos étnico-raciais decorrentes de uma visão segundo a qual a nossa sociedade seria monocultural ou preferencialmente de raiz europeia, quando nossa sociedade é notadamente de raiz indígena, dos povos originários e também africana. A metade da população brasileira, segundo mostra o Censo, é formada por pretos e pardos, ou seja, por pessoas majoritariamente de raiz africana. O país, como um todo, quer se ver única ou preferencialmente de raiz europeia. Esse é o problema central. Somos uma sociedade pluricultural, diversa e que cria um mito de que viveríamos todos tão harmonicamente que teríamos nos esquecido de nossas raízes. E esse mito funciona na medida em que as pessoas se convertem a um modo de ser que não é o seu próprio, sendo que essa conversão anula sua raiz básica. Nós, negros, temos uma raiz africana. Evidentemente, ela foi sendo recriada no Brasil, até nas condições de escravismo. Fomos um povo tratado não como pessoas, mas como objetos. Mesmo nessa situação, esse povo recriou suas raízes. O importante é que nesse contato, que infelizmente não foi nada cordial, muito pelo contrário, houve uma recriação, o que permitiu que fossem aprendendo uns com os outros. Mas isso não significa que deixamos de ser quem somos; a base, a raiz, não morre.

IHU On-Line – Qual a importância do Parecer que estabelece as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-brasileira e Africana?

Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva –
Diante dessa dificuldade de relações igualitárias entre negros e não negros era preciso que houvesse uma determinação legal. As leis são feitas justamente para corrigir distorções. Nesse sentido, é bastante significativo o início deste século. Durante todo o século XX o Movimento Negro brasileiro mostrou a importância de se conhecer a história e a cultura dos afro-brasileiros para que eles sejam respeitados como construtores dessa nação. Quando a lei10.639 [1] é aprovada, esse foi um ganho do Movimento Negro, e não uma concessão como alguns pensam. Em 2008, a lei 11.645 acrescenta a importância de se conhecer a história e a cultura dos povos indígenas. Quando se começou a formular este parecer no Conselho Nacional de Educação (eu era conselheira indicada pelo Movimento Negro), nós pensávamos na educação das relações étnico-raciais e sabíamos que chegaríamos à história e à cultura porque havia múltiplas experiências que deram condições para que se formulassem as diretrizes nos termos em que foram formuladas.

O Movimento Negro mostrava, ao longo do século XX, que, para que as pessoas convivam respeitosamente, elas devem conhecer umas às outras e devem conhecer a história e a cultura. Não podem conhecer somente a de um povo como sendo suas raízes. Uma das principais dificuldades de fazer tudo isso é porque conhecer essa história traz à tona muitas dores e talvez até muita culpa. Se para os filhos dos antigos negros escravizados é doloroso, também não deve ser fácil para os descendentes dos escravizadores ou traficantes. No entanto, as pessoas não devem se sentir culpadas pelo que seus antepassados fizeram, mas elas têm uma responsabilidade, que é a de corrigir o que foi feito. E, para isso, é preciso conhecer, respeitar e valorizar a história de cada um.

IHU On-Line – Como a lei está sendo implementada e qual a especificidade da região sul nesse cenário?

Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva –
A dificuldade da implementação talvez advenha deste aspecto da dor e da culpa, da qual acabei de falar, ou pode vir da crença que alguns têm de que são superiores a outros. Isso exige outra mentalidade, outra maneira de as pessoas se relacionarem. Ao afirmar que é preciso estudar a história e a cultura afrobrasileira e africana, o Parecer e o fato de haver até uma lei sobre isso, significam o reconhecimento de que este é o povo menos valorizado nesse país. É uma política pública de reconhecimento da maior importância.

Sobre a especificidade na região, não tenho muitos dados. Mas o que temos visto é que, aqui na região sul, ocorrem manifestações explícitas de racismo mais cruéis do que em outras regiões. As pessoas costumavam dizer que o racismo no Rio Grande do Sul devia ser maior porque havia muita influência europeia, e eu, como eu sou gaúcha de Porto Alegre, sempre disse que é difícil medir isso. Mas desde as últimas manifestações que temos visto, começo a crer que quem vê de fora parece que vê melhor.

IHU On-Line – Quem é a mulher negra brasileira hoje? Quais suas marcas?

Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva –
O que marca a mulher negra é a garra e a luta pela sobrevivência do seu povo. Ela mantém a raiz do período da escravidão e orgulho do pós-abolição.

IHU On-Line – Como a academia pode contribuir para o debate sobre a diversidade étnico-racial e o que a senhora pensa sobre as cotas para os negros nas universidades?

Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva –
A academia deve, antes de mais nada, reconhecer que a sociedade é plural. A política de cotas e outras de ações afirmativas, quando são implantadas, mostram que a universidade adota uma política institucional. Pela primeira vez as universidades começam a adotar políticas que visam a uma equidade social. Elas se dão conta de que fazem parte da sociedade; não são algo separado ou um lugar em que algumas pessoas se isolariam para iluminar a sociedade. Não é isso. A própria universidade deve ser iluminada pela sociedade. A universidade não pode estar a serviço de um grupo.

IHU On-Line – Qual a contribuição da literatura brasileira para a construção da imagem em torno do negro no Brasil hoje?

Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva –
Depende de quem escreve. Teve um debate interessante, porém doloroso, a partir do parecer do Conselho Nacional de Educação, que deu resposta a um pai, que fez uma denúncia do estudo que seu filho fazia do livro Caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato, na escola, e que tem palavras pejorativas e agressivas contra a personagem Tia Anastácia. Por que chamam as crianças negras de “negrinho-carvão”? As crianças leem Monteiro Lobato, que é autoridade por ser um grande escritor, então acham que podem chamar seu colega desta forma.

IHU On-Line – E Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre?

Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva –
Esse é mais do que simplesmente um livro muito bem escrito. Ele serve de base para justificar o mito da democracia racial, de que vivemos todos harmoniosamente, somos felizes e nos amamos, quando não é isso, a tal ponto que nos esquecemos até quais são nossas raízes. Por isso a cultura europeia é a predominante. É essa luta por reconhecimento da diversidade que esperamos que mude a sociedade, que as pessoas vivam bem e não tenham que brigar pelo que lhes é de direito.

Nota:

[1] A lei n. 10.639, de 9 de janeiro de 2003, altera a lei n. 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as Diretrizes e Bases da Educação Nacional para incluir no currículo oficial das redes de ensino a obrigatoriedade da temática "História e Cultura Afro-Brasileira", e dá outras providências


Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=47426

segunda-feira, 23 de maio de 2011

''As políticas sociais somente terão sucesso quando se desnaturalizar a desigualdade''. Entrevista especial com Ana Maria Colling

“A democracia não pode ser alcançada sem a participação e a inclusão das mulheres”, defende a socióloga Ana Maria Colling, em entrevista à IHU On-Line. Segundo ela, apesar de as mulheres terem conquistado alguns direitos ao longo da história, como a participação política, a cidadania das brasileiras ainda é “contraditória e paradoxal” e a desigualdade de gênero continua sendo o principal impedimento para a democracia. “Democratizar a democracia pressupõe, no Brasil e nos demais países, incluir as mulheres, não como um tema, mas em todos os âmbitos da sociedade. As políticas sociais somente terão sucesso quando se desnaturalizar a desigualdade”, reitera.

Na entrevista que segue, concedida por e-mail, Ana destaca ainda que, a exemplo da Carta Cidadã de 1988, as leis igualitárias para homens e mulheres existem e não permite nenhum tipo de discriminação. No entanto, ressalta, a violência de gênero persiste e é, hoje, o maior desafio posto às políticas sociais. “A violência contra a mulher, expressão da radical desigualdade entre os sexos teima em se permanecer”, complementa.

Ana Maria Colling é graduada em Estudos Sociais e Geografia pela Unijui, mestre em História do Brasil pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS e doutora em História pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS, com a tese A construção da cidadania da mulher brasileira. Igualdade e diferença (2000). Atualmente é professora do Unilasalle, onde leciona no curso de História e no mestrado em Educação.

A Ana Maria Colling participou do 5º Seminário de Políticas Sociais, realizado do dia 12-05-2011.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como se deu, ao longo da história do Brasil, a construção da cidadania da mulher brasileira? Já se conquistou, no país, um discernimento do papel político da mulher na sociedade?

Ana Maria Colling – A cidadania da mulher brasileira foi uma conquista, ainda não alcançada totalmente, contraditória e paradoxal. Ao mesmo tempo em que ela conquistava o direito ao voto universal (cidadania política), uma “doação“ de Getúlio Vargas, ela se mantinha como relativamente incapaz através do Código Civil Brasileiro. Chamo a atenção para a “doação” de Getúlio Vargasjá que a reivindicação ao voto era uma batalha travada arduamente pelas mulheres brasileiras e de todo o Ocidente. Getúlio ignora esta histórica luta e instaura o voto feminino em 1932 através doCódigo Eleitoral que, ao justificar esta concessão, anuncia que, se o Brasil quiser ser moderno como os demais países, deve conceder o voto às mulheres. Modernização igual à construção de pontes, estradas etc. Daí o paradoxo: cidadãs maiores através da Constituição e incapazes através do Código Civil de 1916 (Esta incapacidade relativa dura até a instituição do Estatuto da Mulher Casada de 1962.)

IHU On-Line – Como vê o planejamento das políticas sociais no Brasil no que tange às mulheres e aos seus direitos? Que política é mais eficaz neste sentido?

Ana Maria Colling – Vivemos no caso do Brasil e de muitos países um problema de tempo, mentalidades e cultura. No campo das políticas públicas e também das políticas sociais têm-se tomado iniciativas visando diminuir as desigualdades de gênero. Se o acesso à educação e aos diversos empregos foi também uma árdua luta, assim como o voto, isto foi conquistado. Mas a violência contra a mulher, expressão da radical desigualdade entre os sexos, teima em permanecer. A discussão sobre a desigualdade e a discriminação é um avanço porque elas estão introjetadas profundamente na cultura e nas mentalidades. As leis igualitárias se chocam contra esta muralha construída durante séculos que é a menoridade feminina.

IHU On-Line – Em que medida as políticas sociais brasileiras garantem a democratização da cidadania para as mulheres?

Ana Maria Colling – As Nações Unidas destacaram, em cinco de maio do corrente ano, a necessidade de promover a participação das mulheres na tomada de decisões, observando que a democracia e a igualdade de gênero são interligadas e se reforçam mutuamente. Destaca o secretário geral da ONU, Ban Ki-moon, que a desigualdade de gênero continua sendo um grande impedimento para a democracia. Faço coro às palavras de Ban Ki-moon e de Helen Clark, administradora do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento – PNUD, quando afirmam que a democracia não pode ser alcançada sem a participação e a inclusão das mulheres. Este depoimento dos dirigentes da ONU demonstram que a questão de gênero atravessa fronteiras e não é um privilégio de classe, raça, etnia ou geração. A desigualdade de gênero é uma chaga mundial que precisa ser combatida com todas as forças. Democratizar a democracia pressupõe, no Brasil e nos demais países, incluir as mulheres, não como um tema, mas em todos os âmbitos da sociedade. As políticas sociais somente terão sucesso quando se desnaturalizar a desigualdade.

IHU On-Line – Quais os maiores dilemas e desafios das políticas sociais brasileiras, principalmente as que se referem às mulheres?

Ana Maria Colling - Acabar com a violência contra as mulheres é o maior desafio. As leis igualitárias existem – olhemos a Carta Cidadã de 1988 que não permite nenhum tipo de discriminação e a Lei Maria da Penha, que tenta punir os assassinos e agressores, mas a violência continua. Diariamente na mídia nacional nos deparamos com assassinatos de mulheres. Na maioria das vezes, ex-esposa, ex-noiva ou ex-namorada. A violência resiste a toda a normativa legal. É um caso de saúde pública e um entrave à democracia e ao desenvolvimento.

IHU On-Line – Como a questão de gênero perpassa a questão social e política no contexto brasileiro na instituição das políticas sociais?

Ana Maria Colling – É preciso que o Brasil discuta e saiba o que é a questão de gênero. Gênero nada mais é do que a construção social e cultural dos sexos. O sexo biológico é dado e o gênero é construído. E esta diferença entre os sexos foi historicamente hierarquizada quando se desqualificou um dos pares – o feminino. Se não discutirmos, especialmente nas escolas, a questão de gênero (lugar privilegiado de marcação sexual) muito tempo irá levar para acabar com a discriminação. Não é por ser mulher que se tem uma visão igualitária entre os sexos. Se fosse assim, tudo estaria resolvido. Mulheres parem meninos e meninas, mulheres são atendentes de creches, as escolas dos anos iniciais são comandadas por mulheres e ainda assim o preconceito continua. O que fazer quando a maternidade, única diferença entre os sexos, ainda é um signo de desigualdade? Na conquista e manutenção de empregos, educação, cidadania enfim. Especialmente a educação poderá transformar a relação entre homens e mulheres em relações de efetiva igualdade.

IHU On-Line – Qual sua expectativa em relação ao governo da presidenta eleita, Dilma Rousseff? Que avanços vislumbra nas políticas sociais para mulheres?

Ana Maria Colling – Tenho uma imensa esperança que o governo da presidenta Dilma, mulher inteligente, sagaz, igualitária, faça a diferença. Muitas políticas públicas já estão implementadas e muitas ainda deverão ser efetivadas para erradicar de direito e de fato a desigualdade e a discriminação contra as mulheres.

Como fazer que os direitos humanos englobem todos os humanos – humanas e humanos? Como romper o ciclo de cidadania somente masculina inaugurada pelos franceses após a Revolução de 1789? Esta revolução elaborou a Declaração Universal dos Cidadãos e cortou a cabeça deOlympe de Gouges, que escreveu uma Declaração dos Direitos da Cidadã por não sentir as mulheres incluídas na Declaração dos Direitos do Cidadão.

Decapitam Olympe acusando-a de cometer dois pecados: querer ser um homem de Estado e ter traído a natureza de seu sexo. Se Olympe é decapitada em 1793, as acusações de seus carrascos ainda ecoam como atuais. Querer ser um homem de estado é assumir os lugares até então masculinos, como a política, a escrita. Trair a natureza de seu sexo, é trair a natureza muito bem construída para as mulheres, encarcerada no privado, somente sendo mãe e esposa.

O documento da ONU de 5 de maio nos mostra a triste estatística: menos de 10% dos países têm mulheres como chefes de Estado ou de governo. Menos de 30% de países atingiram a meta de 30% de mulheres nos parlamentos nacionais.

Pensar políticas sociais para mulheres, em minha visão, é não encarar que a igualdade já está estabelecida. Muito se avançou nos últimos anos, mas muito ainda está por ser feito. A desconstrução do masculino e do feminino – abrir o discurso para ver como se construíram os gêneros –, o trabalho, o estudo, os papéis sociais, as naturezas, as essências, etc., e o posterior empoderamento de quem foi desqualificado é fundamental. Gosto de lembrar do sociólogo Pierre Bourdieu, quando e em um pequeno texto sobre mulheres e história ele nos mostra que é impossível uma história de mulheres porque elas têm uma visão dominada que não vê a si própria. É preciso descolonizar o feminino, diz ele. Descolonizar as mulheres é desconstruir os discursos elaborado sobre elas, tão eficazes que elas também o assumiram, depois reconstruir em bases igualitárias, empoderando-as. A desnaturalização dos discursos das práticas sobre e contra as mulheres é tarefa essencial.


Fonte

http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=43508

O legado freudiano no banco dos réus

Em alguns países, como os Estados Unidos ou a Alemanha, Sigmund Freud (1856-1939) costuma ser situado na categoria dos gênios, mas nem por isso sua obra representa unanimidade. Em outros, como França e Argentina - poderíamos incluir o Brasil? -, o pai da psicanálise não é menos do que um ícone. Nesse sentido, duvidar de suas teorias pode ser interpretado como uma blasfêmia. Foi com o propósito de blasfemar e, por isso, suscitar controvérsia, que a editora franco-argelina Catherine Meyer lançou-se ao desafio de coordenar um "front de oposição" a Freud, lançando em 2005, pela Les Arènes, O Livro Negro da Psicanálise.

A reportagem e a entrevista é de Andrei Netto e publicada pelo jornal O Estado de S.Paulo, 21-05-2011.

O impacto da obra foi imediato - e rapidamente se internacionalizou. Composto em sua versão original de mais de 40 artigos assinados por filósofos, historiadores, psiquiatras e também pacientes, o livro explorava as dúvidas e os fracassos que pesariam sobre a "ciência" fundada por Freud, tomando por base cinco temas: mitos e lendas da psicanálise, seu sucesso, seus impasses, suas vítimas e uma proposta de prática pós-freudiana.

Para tanto, Meyer, 52 anos, encomendou ensaios a especialistas como Mikkel Borch-Jacobsen, autor de Anna O. - Uma Mistificação Centenária; Didier Pleux, diretor do Instituto Francês de Terapia Cognitiva; e Jacques Van Rillaer, professor de psicologia da Universidade de Louvain-la-Neuve e praticante das terapias comportamentais e cognitivas (TCC). Tratava-se, então, de um desafio a dogmas e mitos. O efeito, no entanto, não foi o alcançado, segundo admite Catherine Meyer. Em vez de abrir um debate sobre o lugar das terapias da mente, O Livro Negro da Psicanálisedeu origem a uma espécie de acerto de contas entre praticantes da psicanálise e das TCC e a uma troca de farpas no mundo intelectual parisiense e internacional.

A bem da verdade, não se pode inocentar Meyer, que se dispôs ao desafio tendo o marketing como uma de suas preocupações centrais, verificada desde a escolha do nome da obra até seu grande mote: "Freud mentia". Essa polêmica ganha destaque no Brasil com a publicação de uma versão abreviada da edição francesa do Livro Negro da Psicanálise, reunindo textos de 23 ensaístas selecionados por Simone Perelson. Resta torcer que não seja igualmente vazia. Catherine Meyer - formada em Letras Modernas pela Escola Normal Superior, com mestrado sobre ópera romântica - diz esperar que não. Está no seu papel.

Eis a entrevista.

Na sua opinião, Freud era um mentiroso?

Sim, porque ele fraudou seus resultados. Não foi o único; há outros a trapacear no meio científico. Mas você sabe como as coisas funcionam na ciência: define-se uma hipótese, mesmo que inacreditável - como Édipo e o amor de um filho pela mãe e a pedra angular de nossa vida psíquica. Eis uma hipótese! Um filho tem desejo e quer ter relações sexuais com sua mãe. É o Complexo de Édipo. Quando se faz uma hipótese científica, a seguir passa-se à fase de verificação. Procede-se um percurso de pesquisa para constatar a hipótese pela sua eficiência. Quando se imagina um medicamento para a tuberculose, ele é testado em várias pessoas. A seguir, usamos a lixeira para jogar fora todas as hipóteses refutadas. O que os teóricos explicam muito bem no Livro Negro da Psicanálise é que Freud lançou hipóteses e elas nunca deixaram de ser apenas isso: hipóteses. Ele traficou a realidade para confirmar suas hipóteses.

É essa a sua visão sobre a hipótese central de Freud?

A hipótese central de Freud é sensacional! É ela que explica ao mesmo tempo a força e o poder da Psicanálise. Karl Popper explicou que a psicanálise não era uma ciência porque era irrefutável. O Complexo de Édipo é irrefutável. Se você argumenta: "Não, no meu caso não é verdade: eu detesto a minha mãe e adoro o meu pai" e se eu sou um psicanalista, eu lhe respondo: "Isso não refuta o Complexo de Édipo; o que você está fazendo é negar o Complexo de Édipo". É o gênero de teoria "coroa, eu ganho; cara, você perde". É sempre verdade. Karl Popper explicou essa incoerência muito bem. A partir do momento em que atribuímos tudo ao inconsciente, qualquer coisa pode ser verdade. Logo, digo eu, não é jamais verdade. Ou, ao menos, é inverificável. Outra armadilha da psicanálise é que todos os grandes teóricos se contradizem. O que Freuddiz no início não é o mesmo que diz no fim, o que Freud diz é diferente do que diz Otto Rank, que é diferente do que diz Carl Gustav Jung. Uns dizem: "Veja, o Complexo de Édipo é simbólico, não real". Outros dirão "Não, é concreto". Dirão que uma criança - de 4 ou de 7 anos, de acordo com cada especialista - quer realmente manter relações sexuais com sua mãe. É uma teoria elástica. Elástica demais.

Sua análise, de uma "teoria elástica", me faz lembrar as críticas de filósofos da pós-modernidade que consideram a psicanálise e as teorias freudianas discursos metanarrativos que se dispõem a explicar o mundo, como o marxismo, por exemplo. É essa sua linha?

Absolutamente. Freud é um filósofo, muito mais do que um cientista. Ele se pretendia um cientista. Era um médico que desejava o Prêmio Nobel de Medicina, que desejava fundar uma ciência. Para ele, a sexualidade estava para o psiquismo como o bacilo de Kochestá para a tuberculose. Ele desejava encontrar a etiologia de todos os problemas psíquicos. Depois veio Lacan, dizendo que não. Mas, para voltar ao tema "mentira",Freud trabalhou com pacientes e era protegido pelo segredo médico. Quando ele fazia uma descoberta sobre o que revelava um lapso ou um sonho, ao escrever um estudo de caso sobre o tema ele não podia revelar o nome de seus pacientes. Eles eram identificados como O Homem dos Lobos (Sergius Pankejeff), O Homem dos Ratos (Ernst Lanzer), Anna O., caso que foi analisado por seu mentor, Joseph Breuer. Tudo se baseia na palavra de Freud, e nós somos obrigados a acreditar em sua palavra. Como saberemos se o que foi dito é verdade? Berger, um dos primeiros historiadores da psicanálise, fez pesquisas e descobriu que Anna O. se chamava Bertha Pappenheim, e descobriu ainda que ela nunca foi curada. Há outros exemplos. Além do trabalho de historiadores, pode-se dispor da própria obra de Freud, que era muito vasta, afinal, ele era um gênio.

Era um gênio? Mas como Freud pode ser um mentiroso e um gênio?

Há muitos políticos que são geniais e mentirosos, por exemplo.

Uma das críticas comuns à obra que a senhora coordena é o próprio título. Seus detratores o consideram um oportunismo, já que antes o Livro Negro do Comunismo havia feito muito sucesso. A escolha do nome foi marketing?

É verdade que o Livro Negro do Comunismo fez muito barulho. Mas, na época em que pesquisei para o nosso, levantei quantos livros negros havia: não lembro se eram 30 ou 60. "Livro negro" é um conceito genérico para designar um balanço crítico. Porque usamos a expressão "livro negro" não quer dizer que vamos falar de genocídios. Alguns autores que integram a obra eram contra esse título. Mas queríamos fazer um livro para o grande público, ao contrário dos outros, muito acadêmicos. Nosso objetivo era reunir o front dos que refutam: filósofos, psicólogos, psiquiatras, pacientes, historiadores... Algo mais geral, mais voltado ao grande público. Sim, eu assumo que pensamos no marketing também. Mas era para mostrar que não seria apenas um livro acadêmico, mesmo que tenhamos nele muitos acadêmicos de alto nível.

Eu gostaria de ouvi-la sobre críticas contundentes que o seu livro suscitou na França na época de sua publicação. Jean Birnbaum, por exemplo, afirmou que seu livro parece fazer uma aproximação perigosa, uma equação psicanálise = terror.

O que aconteceu é que muitos psicanalistas e jornalistas, no caso de Birnbaum, em lugar de responder às questões abertas pelo livro, dizendo que não estão de acordo com tais e tais argumentos, tentaram lançar uma cortina de fumaça, fazendo acusações. Não houve um verdadeiro debate na França. Então me dei conta de que Freud é um ícone quase religioso. Atacar a Igreja teria sido menos chocante. Freud é um mito. Ao dirigir um livro, tomei todo o cuidado possível para que os ensaios fossem extremamente rigorosos e que não fossem escritos em tom agressivo, mas em tom analítico. O que lamentei foi que, em lugar de abrir uma verdadeira polêmica, uma discussão, houve ataques, apenas ataques.

Elisabeth Roudinesco constatou em artigo que determinadas citações de sua obra empregadas por autores que assinam o seu livro não são fiéis ao seu pensamento. O que a senhora responde?

Gostaria que ela nos indicasse essas citações.

Ela o fez. Escreveu um artigo, À Propos du Livre Noir de la Psychanalyse, citando trechos do livro e comparando-os à sua própria obra.

Nós não traficamos citações. Ela, sim, trafica citações. A senhora Roudinesco diz ser historiadora da psicanálise, mas não fala alemão. Todos os outros historiadores da psicanálise falam alemão. Eles leram Freud em versões originais e não nas traduções francesas, que não são boas. A senhora Roudinesco foi e é de uma grande má-fé.

Alguns críticos interpretaram o seu Livro Negro como um ataque frontal de adeptos das terapias comportamentais e cognitivas (TCC), que contestam abertamente a legitimidade da psicanálise. Como essa disputa entre a psicanálise e as TCC se reflete no seu livro?

É uma das questões em jogo, mas não a única. Algumas pessoas resumiram o livro a essa questão. Mas não é verdade. Para um jornalista, é fácil reduzir o livro a uma guerra entre duas escolas. É verdade em parte. Mas toda a pesquisa histórica que está no livro não tem nada a ver com briga de escolas. Os historiadores que constam do livro buscam o viés de historiadores, apresentando Freud como um médico que fez descobertas. Eles não têm nada a ver com TCC.

Mas esse afrontamento existe no livro.

Uma das razões pelas quais eu quis fazer esse livro é porque, na França, um psi é forçosamente um psicanalista, enquanto nos Estados Unidos, na Europa do norte, nos países nórdicos, há várias alternativas terapêuticas, entre as quais a psicanálise. A psicanálise não é o único deus no universo psi.

Mas Roudinesco, que é reconhecida como uma das psicanalistas mais importantes do mundo, afirma que a psicanálise é muito eficiente contra neuroses, mas não psicoses. Isso não é um mea-culpa?

Freud dizia isso também. Mas esse é outro problema. Na França, você pode se tornar psicanalista depois de fazer estudos de sociologia e passar por análise didática. Assim você se torna psicanalista. Não há nenhuma formação clínica. Nenhuma. Se o sujeito não tem formação clínica, como pode saber se tem diante de si um neurótico ou alguém que está em depressão muito grave?

A senhora disse que a verificabilidade é um dos problemas da psicanálise e uma das questões em jogo no livro. Mas não podemos verificar com precisão resultados em diversas outras Ciências Humanas. Por que a psicanálise não é uma ciência e a sociologia é uma ciência, a seu ver?

A sociologia não é uma ciência. A medicina ou a psiquiatria são ciências. E olhe lá, porque elas também não conseguem explicar por que alguns pacientes se curam e outros não. Deixe eu citar um exemplo: o autismo. Nesse assunto, estamos realmente no lado negro da psicanálise, porque ela fez muito estrago. A psicanálise, por meio de Bruno Bettelheim, que acusou as mães de serem responsáveis pelo autismo de seus filhos (mais tarde surgiriam denúncias de que ele maltratava os pequenos pacientes). Inconscientemente, dizia o autor, a mãe desejava a morte de seu filho. Além de ser extremamente irresponsável, já que sabemos que o autismo é um problema genético em grande parte, ainda é cruel, porque acusa uma mulher de ser a responsável por uma doença. Não bastasse, sabemos que não se pode curar o autismo.

Voltando ao assunto, sua definição de ciência se limita ao que se costumava chamar de "ciências duras", excluindo as Ciências Humanas.

É isso. A psicanálise é uma teoria que repousa sobre a areia, sobre o segredo, sobre o que não se pode verificar, o que é irrefutável, o que não pode ter sua eficácia comprovada. É claro que há coisas positivas. Não sou contra a constatação do inconsciente. Muitos teóricos estão de acordo. Mas isso não quer dizer que estamos de acordo com o inconsciente freudiano. A ideia de que temos um inconsciente que pode determinar certos comportamentos não é negada por ninguém, mas isso pode não ter nada a ver com a sexualidade, com o Complexo de Édipo, a angústia da castração. É isso que eu refuto.

Não podemos usar o mesmo argumento da cura e de sua verificabilidade para a TCC?

Mas eu não vejo quem pode se dizer hoje em dia capaz de curar tudo, como fazemos com doenças tratáveis por antibióticos. Estamos no início. O conhecimento do psiquismo e a cura do psiquismo têm apenas 150 anos. Estamos na situação dos médicos da Idade Média, que ousavam tratar retirando e injetando sangue.

A senhora já fez análise?

Não, não fiz análise. O que fiz foi uma curta psicoterapia analítica que me fez muito bem. Por um ou dois anos fui a um terapeuta. Eu não era doente. Tinha apenas alguns problemas existenciais, e a terapia me fez muito bem. Não tenho nenhum acerto de contas com a psicanálise. O conselho que daria é, se você é doente, não faça psicanálise. Eu descobri algo que funciona muito bem para casos de problemas existenciais, por exemplo, que é a meditação.

A senhora faz meditação? E como avalia sua eficácia?

É algo extremamente bem avaliado em termos de eficácia. Para avaliar, é preciso ter códigos. Um americano, por exemplo, introduziu a meditação na medicina há 30 anos, o que nos dá uma boa base. Ele fez um programa de oito semanas que se chamaMindfullness Based Stress Reduction (MBSR). Ele submeteu durante oito semanas pessoas que sofriam de um certo tipo de inflamação a encontros semanais, divididos em dois grupos: um grupo fazia meditação, com auxílio de videocassetes, etc; outro jogava cartas, xadrez, etc. Ao fim de oito semanas, o grupo que havia meditado tinha inflamações bem menores. Os que jogaram cartas, tinham inflamações maiores.

Surpreende que alguém com uma crítica tão enfática à psicanálise acredite nos efeitos benéficos da meditação, mesmo da MBSR, que interage com a psicologia e a psiquiatria.

Mas não é antinômico. Não mesmo.


Fonte

http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=43494